Documento criado em 18 Abril 06
ASPJ  Em Português 2° Trimestre 2006

As Novas Tecnologias no Ensino*

Major TMMA Joaquim Manuel Martins do Vale Lima,
Força Aérea Portuguesa

* O presente artigo constitui uma adaptação do trabalho de maior amplitude realizado pelo autor no âmbito do Curso Geral de Guerra Aérea no então Instituto de Altos Estudos da Força Aérea Portuguesa. Consoante a política editorial deste periódico, os artigos publicados representam pensamento de seus respectivos autores e não do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade da Força Aérea ou de qualquer outro órgão nacional ou estrangeiro, independentemente da apreciação positiva que possam ter recebido na Força a que o autor pertença. Na publicação deste artigo respeita-se a grafia original.—Nota da ASPJ em português.

A designação "Novas Tecnologias da Educação", na sua forma mais genérica, é utilizada em variadíssimos contextos, perdendo, por vezes, o seu sentido mais profundo. Numa perspectiva de ensino e aprendizagem, será conveniente esclarecer alguns conceitos relativos às tecnologias da informação e da comunicação e definir, de seguida, com rigor, algumas implicações pedagógicas das mesmas.

Conhecidas genericamente como Tecnologias da Informação, e mais usualmente como "Novas Tecnologias da Informação", o seu conceito é recente. São tecnologias electrónicas para coligir, armazenar, processar e comunicar a informação.1 Podem considerar-se duas categorias de tecnologias: as que são capazes de processar a informação (como os computadores) e as que disseminam a informação, como os sistemas de telecomunicações. Actualmente estas duas categorias têm vindo a fundir-se, tendo como objectivo principal disponibilizar a informação com rapidez, segurança e exactidão.

É sabido que a Escola** enfrenta, hoje, grandes desafios que exigem uma actualização e reconversão das potencialidades que as novas tecnologias põem ao seu dispor. Deve ser, portanto, papel dos diversos sistemas que proporcionam educação investigar e dar resposta às necessidades, expectativas e projectos de uma sociedade em célere processo de evolução e de mudança. Essa investigação deve ser desencadeada no âmbito das Novas Tecnologias da Educação e apadrinhada pelas instituições que cumprem, ainda que como actividade complementar ou subsidiária, essa nobre missão de ensinar, formar e preparar os seus quadros para o desempenho das suas funções. Num mundo em constante mudança, o conhecimento e manipulação das novas tecnologias do ensino permitirão às organizações em geral, e às Forças Armadas em particular, o acesso a informações essenciais. A existência de uma rede de ensino e investigação avançadas permite hoje uma difusão rápida da informação e do conhecimento. A Sociedade da Informação reclama uma contínua consolidação e actualização dos conhecimentos por parte dos cidadãos para que possam tornar-se exploradores dinâmicos do mundo que os envolve e contribuirem para o sucesso, eficiência e eficácia no seio das organizações em que se inserem.

** Trata-se do conceito alargado de "Escola" que abarca não só as Instituições Oficiais de Ensino, mas também, e no contexto deste artigo essencialmente, as áreas das mais diversas organizações e instituições (nas quais se incluem, naturalmente, as Forças Armadas) que se dedicam à formação e preparação dos seus quadros para o desempenho de funções profissionais específicas.

Considerações gerais

As transformações que ocorreram no mundo contemporâneo, motivadas pelo incremento, desenvolvimento e aplicação das novas tecnologias, conduziram à passagem da Sociedade Industrial para a Sociedade da Informação. Com efeito, a sociedade em que vivemos é uma sociedade da comunicação generalizada, uma sociedade marcada pelo predomínio dos meios de comunicação. Gianni Vattimo afirma que o papel desempenhado pelos meios de comunicação social caracteriza a nossa sociedade, não como "uma sociedade mais transparente, mais consciente de si, mais iluminada, mas como uma sociedade mais complexa, até caótica".2 Por outras palavras, importa reconhecer, antes de mais, na perspectiva do autor, que estamos à beira de novos desafios que implicam respostas eficazes face aos impactos que a Sociedade da Informação irremediavelmente está a causar. É sabido que as novas tecnologias estão a reestruturar a sociedade, a produzir mudanças sociais significativas e não consensuais, a suscitar dilemas e escolhas éticas e a introduzir rupturas nas concepções político-económicas dominantes. Porém, em certas sociedades a transição da revolução agrária para a revolução industrial foi muito lenta. Independentemente dos modelos de sociedade, desenvolveram-se concepções que tendem a encarar o desenvolvimento tecnológico a partir de perspectivas antagónicas que poderíamos designar de pessimismo e optimismo tecnológico. Quer um, quer outro parecem ser concepções exageradas. O primeiro, porque vê toda a tecnologia como um mal, um fatalismo, a expressão do colapso da civilização. O segundo por fazer depender exclusivamente da tecnologia, a felicidade humana.

O Conceito de Sociedade da Informação. A Sociedade da Informação, como conceito, não é novo. Surgiu nas décadas de 60 e 70 do século passado, associado às correntes filosóficas e teorias sociológicas. A expressão "Terceira Vaga" de Alvin Toffler evidencia o surgimento, depois das revoluções agrícola e industrial, de uma nova revolução que estará na base da Sociedade da Informação.

Hoje, é imprescindível promover o acesso universal à info-alfabetização e à info-competência, não só como forma de superação de prováveis discriminações sociais, mas também como medida efectiva no sentido de garantir a sobrevivência das organizações. Esta preocupação é reveladora do sentido ético que deve estar subjacente às transformações da sociedade, não sendo, por essa razão, possível identificar esta posição com o "pessimismo tecnológico". Naturalmente, a ameaça da info-exclusão existe. Quem não souber no futuro operar com as tecnologias da informação e da comunicação será um analfabeto funcional. Ora, a literacia tecnológica não atingiu ainda, em muitas sociedades, índices razoáveis.

De acordo com Daniel Bell, o desenvolvimento crescente da Sociedade da Informação no pós-industrialismo provocará uma alteração do quadro de referência social, uma vez que as telecomunicações serão decisivas no modo de encarar as mudanças económicas e sociais, a aquisição e criação do conhecimento, as mudanças no mundo do trabalho e das relações sociais.3

Se os meios de comunicação convencionais se baseavam numa lógica unidireccional cultivando um modelo de cidadão passivo e obediente (espectador), a Sociedade da Informação criou, através da interactividade, cidadãos activos conectados com a fonte da informação. A soma da dimensão multimédia com a interactividade conduziu ao aparecimento do pensamento em rede. Este pensamento conduziu a um reforço da diversidade e da individualização, pondo fim à uniformidade e massificação.

Tendo crescido ao longo dos últimos trinta anos, a Sociedade da Informação desabrochou pouco antes do limiar do século XXI. O primeiro passo deu-se com a transformação da informática e das telecomunicações em protagonistas decisivos dos tempos modernos. A disponibilização de recursos multimédia e a crescente capacidade de armazenar e gerir dados transformaram radicalmente o cenário da informação e da comunicação. A digitalização, explorada com o desenvolvimento das redes de computadores, permitiu representar informação (texto, imagens ou som). O computador pessoal, com a capacidade de se conectar através de uma simples rede telefónica a outros computadores, formando redes cada vez mais complexas, abriu as portas à interactividade, sem limites geográficos ou culturais, deixando o espaço de ser a variável decisiva, cedendo o lugar ao tempo como factor estratégico. É, aliás, aqui que assenta uma das mais bem sucedidas conquistas da Sociedade da Informação: a Internet.

O desafio para uma audiência qualificada que estará no cerne desta revolução passa por, percebendo a dinâmica da Sociedade da Informação, contribuir para que efectuem as mudanças necessárias, afim de retirar dela o máximo proveito.

A Sociedade da Informação e a Educação. A revolução induzida pelo desenvolvimento da Sociedade da Informação é, hoje, um dado inquestionável. Discretamente, quase sem se perceber, foram-se desenvolvendo, nos anos 70 e 80 do último século, as bases de uma revolução que só tem paralelo nas maiores mudanças históricas. Como todas as grandes revoluções da Humanidade, também esta arrasta esperança e receios, mas sobretudo incertezas. Nenhum de nós pode, com segurança, prever o que vai ser a Sociedade da Informação em toda a sua plenitude.

Reclama-se hoje que os meios de comunicação tenham uma função educativa na nossa sociedade. Alvin Toffler afirma que a justiça social e a liberdade dependem hoje cada vez mais da maneira como cada sociedade trata três questões: a educação, a tecnologia da informação e a liberdade de expressão. No entender deste autor, todo o fenómeno educativo exige uma reconceptualização. As mudanças no processo educativo exigirão novos canais, um sistema rico em escolhas que permita preparar as pessoas para uma vida decente na Sociedade da Informação. Ainda segundo Toffler, a educação não é apenas uma prioridade para as elites (professores, pais, reformadores pedagógicos) mas um assunto que interessa aos sectores mais avançados da economia. Por isso, não é possível ignorar a relação entre o sistema educativo do futuro e o sistema mediático do futuro. A situação actual é, no entender de Toffler, bastante problemática. Este autor afirma que "Os laços entre a educação e os seis princípios do novo sistema mediático—interactividade, mobilidade, convertibilidade, conectividade, ubiquidade e globalização—praticamente não foram explorados".4 É verdade que a Sociedade da Informação exige uma contínua consolidação e actualização dos conhecimentos dos cidadãos. O reconhecimento da relação inalienável entre a Sociedade da Informação e a Educação leva à perspectivação das bases em que assentará a Escola do Futuro.

A Escola do Futuro. A evolução rápida do conhecimento e da técnica e a proliferação da informação baseada em suportes electrónicos exigem um novo desempenho das instituições. A Escola deve ajudar cada aluno a adquirir saberes e competências de base, a facilitar a adaptação à mudança e a desenvolver o gosto e a capacidade de aprender e reaprender ao longo da vida. A crescente quantidade de informação necessária para qualquer actividade e o facto de esta se encontrar cada vez mais disponível fizeram com que os tradicionais sistemas de informação se encaminhassem vertiginosamente para um estado de obsolescência. É, pois, por demais evidente a necessidade de adaptar os sistemas de ensino a esta nova realidade que se caracteriza pelo reduzido tempo de vida útil do conhecimento e pela urgência de repensar os conceitos de escola, educação, ensino e aprendizagem.

O conceito clássico de ensino assenta no pressuposto do saber inquestionável do mestre e na sua autoridade, num processo de transmissão do saber sob a forma discursiva, frequentemente expositiva, sem dimensão interactiva e adaptativa. Ora, esta forma de ensinar e transmitir o saber parece cada vez mais desajustada face às exigências do novo mundo do progresso tecnológico e científico.

A educação deve transmitir, cada vez mais, saberes adaptados a uma Sociedade da Educação (Learning Society) como base das competências do futuro. Da tradicional transmissão dos saberes, evoluiu-se para uma Sociedade do Saber baseada na capacidade individual da construção dos conhecimentos, onde as tecnologias da informação e da comunicação são instrumentos ao serviço dessa construção. Deste modo, a Sociedade da Informação será marcada pelo primado do saber.

Torna-se, assim, evidente a necessidade de uma profunda transformação nos métodos de ensino. A Escola do Futuro deve inculcar a arte de pensar e aprender ao longo de toda a vida, estimular e desenvolver a motivação pela aprendizagem, atribuindo aos alunos um papel activo no processo de aprendizagem.

O novo modelo de ensino emergente reclama um novo modelo de escola, quer em termos de espaço geográfico, quer em termos de equipamentos. Será mais uma escola-centro de recursos, baseada nas novas tecnologias com menos salas de aulas tradicionais e mais centros de documentação e informação.

O novo papel que a Escola deve desempenhar pode ser cumprido se existirem programas mais flexíveis, competências interdisciplinares e ensino individualizado, reforço da capacidade de ensino, graças a uma melhoria da formação inicial e contínua e à utilização mais adaptada das novas tecnologias e dos meios. A educação deve facultar a todos a possibilidade de dispor, recolher, seleccionar, ordenar, gerir e utilizar a informação. A Escola deve tirar partido da profunda revolução no mundo da comunicação operada pela digitalização da informação, pelo aparecimento da multimédia e pela explosão das redes telemáticas. Tais modelos de ensino e de escola exigem uma nova qualificação e um novo perfil do professor na Sociedade da Informação.

O Perfil do Professor na Escola do Futuro. A importância do papel do professor enquanto agente da mudança, favorecendo a compreensão mútua e a tolerância, ganha actualmente maior significado. É inegável que os professores desempenham um papel importante na formação de atitudes face ao processo de ensino e aprendizagem. Cumpre-lhes a árdua e difícil tarefa de despertar nos alunos o espírito de curiosidade, o desenvolvimento da autonomia, do rigor intelectual e a criação de condições indispensáveis para a promoção do sucesso da educação informal e da educação permanente.

Se é certo que ensinar é uma arte e que nada pode substituir a riqueza do diálogo pedagógico, a revolução mediática abre hoje ao ensino vias jamais exploradas. As tecnologias da informação e comunicação multiplicaram enormemente as possibilidades de busca de informações e os equipamentos interactivos e multimédia colocaram à disposição dos alunos um manancial inesgotável de informações. Por isso, os alunos tornaram-se investigadores. Uma das funções dos professores consistirá, doravante, em ensinar os alunos a gerir, na prática, a informação que lhes chega. Ora, esta função introduziu uma nova forma de relacionamento entre alunos e professores.

É evidente que a introdução e desenvolvimento das novas tecnologias e sua aplicação ao ensino em nada diminuiu o papel do professor. Modificou-o profundamente. O professor deixou de ser o único detentor do saber e passou a ser um gestor das aprendizagens e um parceiro de um saber colectivo. Não possui, seguramente, a quantidade de conhecimentos que circulam hoje nas redes telemáticas. Mas possui uma experiência profunda e insubstituível, em termos de comunicação e relações humanas. Deste modo, compete-lhe exercer toda a sua influência no sentido de organizar o saber que, muitas vezes, é debitado de uma forma caótica, sem espírito crítico e sem eficácia. O novo perfil do professor levará, decididamente, a situá-lo na vanguarda do processo de mudança que a Sociedade da Informação pôs em marcha.

Para habilitar o professor a assumir este novo papel, é indispensável que a sua formação inicial e contínua lhe confira um domínio significativo destes novos instrumentos pedagógicos. Para isso é necessário proceder a estudos prévios sobre o impacto das novas tecnologias no contexto educativo.5 Os professores devem ainda revelar sensibilidade em relação às modificações profundas que as novas tecnologias provocam nos processos cognitivos.

Doravante, não basta que os professores ensinem os alunos a aprender; têm que os ensinar também a pesquisar e a relacionar entre si diversas informações, despertando neles o espírito crítico. Porque a quantidade de informações que actualmente circula nas redes de informação é imensa, tornou-se um pré-requisito orientar-se no meio dos saberes. Porém, a introdução das tecnologias evoluídas não mereceu da parte de todo o corpo docente as melhores reacções. Muitos deles revelaram, a nível afectivo, cognitivo e disciplinar, uma atitude negativa face à introdução das novas tecnologias. Este processo que obrigou a um redimensionamento dos actores no palco escolar parece estar hoje em vias de resolução progressiva.

As novas tecnologias educativas

A utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no processo de ensino e aprendizagem levantou uma série de interrogações, quer acerca do papel das mesmas no contexto educativo, quer acerca das competências e atitudes a desenvolver por alunos e professores quer, ainda, acerca da avaliação do carácter pedagógico dos programas educativos. Num primeiro momento, as novas tecnologias foram encaradas com desconfiança e como uma ameaça para os professores, nomeadamente uma ameaça à sua autoridade, à sua segurança e à sua profissão. Com efeito, impõe-se, neste âmbito, uma distinção essencial. A informação não é necessariamente conhecimento. Por outro lado, se todo o acto educativo deve ser um acto de comunicação, os conceitos designam realidades diferentes. Assim, uma das questões mais discutidas, embora tenha sido também das mais inúteis, foi a de saber se as tecnologias podiam substituir o professor. Se é certo que as novas tecnologias podem ameaçar a segurança do professor como detentor do saber, a figura do mesmo, enquanto pessoa, é insubstituível. As tecnologias jamais permitirão uma relação pedagógica profunda que o professor tipifica, patente na comunicação face-a-face, na atenção não estandardizada e na emoção autêntica.

Uma vez superada esta questão, as novas tecnologias passaram a ter um uso significativo em contexto educativo. A opção que conheceu desenvolvimentos espectaculares foi o ambiente multimédia interactivo que combina vários meios de informação: computadores, discos ópticos, modems e outras aplicações. Através do écran do computador o aluno lê o texto, vê imagens (fixas ou animadas), ouve sons. Tem o controlo da sequência da matéria que estuda, pode estabelecer ligações com bancos de dados que contêm informação e pode trocar mensagens com colegas em escolas diferentes.

Superadas as questões relativas ao conhecimento das aplicações do computador no ensino, levantaram-se questões relativas à identificação, avaliação e adopção de software, à utilização dos recursos disponíveis e às atitudes acerca do uso de computadores. O problema que então emergiu foi o da qualidade pedagógica do software educativo.6 Os primeiros programas educativos eram constituídos por programas tutoriais e simulações relativamente simples e não levantavam interrogações essenciais em relação ao processo de ensino e aprendizagem. No entanto, foram surgindo programas mais sofisticados, nomeadamente simulações e jogos de qualidade do ponto de vista conceptual e gráfico, elaborados por equipas mistas compostas por técnicos informáticos e pedagogos. Tais programas demonstraram a capacidade de originar ambientes de aprendizagem atractivos. A sua introdução conduziu ao esbatimento dos papéis tradicionais dos alunos e professores, dando lugar a novas formas de interacções e iniciativas, permitindo um envolvimento mais autêntico dos alunos na sua própria aprendizagem e o desenvolvimento de competências complexas.

A metamorfose operada nas tecnologias de comunicação conduziu a que deixasse de fazer sentido referir apenas o computador como única tecnologia. A tecnologia multimédia permitiu a definição de um ambiente não linear, multicanal e multidimensionado. O recurso a ambientes atractivos com tecnologia integrada conduziu ao aparecimento da Pedagogia Multimédia.

A Comunicação e a Pedagogia Multimédia. Até há pouco tempo, falar de comunicação multimédia implicava abordar os vários meios de comunicação audiovisual, interpessoais ou de massas, que se poderiam combinar ou integrar num só acto comunicativo com características de homogeneidade espacial, temporal e temática. Nos países onde mais se têm desenvolvido as tecnologias de informação e comunicação, a expressão multimédia designa a simbiose entre as tecnologias de informação e da comunicação, envolvendo meios informáticos, auditivos, visuais e audiovisuais e utilizando constelações de materiais que, podendo variar um pouco na sua configuração, contam geralmente com o concurso de computadores, leitores de discos ópticos e programas de gestão. Pressupõem a integração e a articulação, a vários níveis, das respectivas linguagens em presença e estimulam o desenvolvimento de estratégias de interactividade, bem como o desenho de materiais programáticos adequados aos objectivos pedagógicos.

Por conseguinte, a questão de saber o que seja a pedagogia multimédia conduz a várias respostas possíveis. Uns, defensores da vertente mais instrumentalista e tradicional da Tecnologia Educativa, apontam para uma mera mas profícua utilização dos media ao serviço do fornecimento programado de conhecimentos, independentemente do processo ou meios pedagógicos usados parar os veicular. Outros salientam fundamentalmente a importância da comunicação como factor fundamental de aprendizagem.

A Pedagogia multimédia é hoje o campo onde se desenvolve a reflexão sobre a utilização das aplicações multimédia no ensino, os seus condicionalismos e possibilidades de desenvolvimento, avaliando materiais, processos e resultados independentemente das indicações, tendências e desejos e profecias da indústria e comércio. Segundo os princípios da Pedagogia Multimédia os materiais devem ser utilizados tendo como suporte um espírito crítico e o respeito prioritário pelos objectivos pedagógicos. A Pedagogia Multimédia reflecte ainda acerca das profundas alterações que ocorreram no processo educativo em termos de interacção aluno-professor e aluno-aluno.

O Impacto das Novas Tecnologias Educativas. Salientou-se já que o desenvolvimento do multimédia e das telecomunicações, a sua banalização e integração, a curto ou médio prazo, em diversos sectores do quotidiano, implicou uma nova abordagem do processo de ensino e aprendizagem e da educação em geral. Os ambientes de aprendizagem criados pelas TIC permitiram que os alunos aprendessem por si, reforçando a sua autonomia de acordo com diferentes estilos de aprendizagem, refinassem o espírito crítico e aumentassem a auto-confiança e a auto-estima. Além disso, as TIC facilitaram a comunicação, o acesso à informação e diversificaram as fontes da informação.

Estudos qualitativos centrados em processos de implementação de diferentes programas no âmbito das TIC e realizados em diferentes países têm revelado mudanças consistentes na organização social da sala de aula, conduzindo a novos padrões de participação e, consequentemente, a uma mudança no papel tanto dos professores como dos alunos. A introdução das TIC permitiu a constituição de comunidades de aprendizagem onde existe uma atmosfera de colaboração e cooperação entre professores e alunos e um clima de autenticidade, na medida em que a aprendizagem se processa de um modo contextuado. Alterou os processos cognitivos valorizando o ensino pela descoberta.

Entre o vasto leque de aplicações das TIC em educação é possível, actualmente, distinguir duas abordagens principais que não se excluem uma à outra, antes se complementam. A primeira defende a utilização das tecnologias como suporte do currículo e adequa-se às práticas comuns seguidas pelos professores. Esta abordagem entende que a utilização da tecnologia gera o desenvolvimento de actividades motivadoras e permite tornar a aprendizagem do currículo mais eficiente. O aluno pode aprender mais conteúdos e adquirir um conjunto de competência num menor espaço de tempo. Seria competência do professor assumir um papel de técnico, capaz de programar as actividades que envolvessem as TIC de acordo com as exigências curriculares e de planear as actividades lectivas de forma a ajustar as qualidades da tecnologia ao currículo. A segunda abordagem defende a utilização da tecnologia como veículo promotor da mudança educativa. Salienta que as aplicações tecnológicas permitem o acesso e o processamento da informação e a sua comunicação segundo modalidades que transcendem as práticas comuns da sala de aula e da escola mas que se aproximam do modo como as pessoas trabalham e adquirem experiência. Trata-se da abordagem que maior atenção tem merecido de todos os intervenientes em educação e que implica uma transformação do papel do professor entendido agora como orador, tutor, gestor de projectos, interlocutor, parceiro e facilitador da aprendizagem, entre outros.

Da percepção de que todo o acto educativo é um acto comunicativo e que todo o acto comunicativo tem implicações educativas nasceu o ramo das Tecnologias de Informação e Comunicação Educativa que salienta a necessidade de formação teórica e prática dos professores em comunicação educativa. Trata-se de um novo perfil de professor, mais voltado para actividades de orientação e sensibilização do que de um perfil essencialmente marcado pela função, mais ou menos mecânica, de transmissão de conhecimentos.

A Tecnologia Educativa e os Ambientes de Aprendizagem. As novas tecnologias interactivas podem ser, por vezes, encaradas pelos professores como uma sobrecarga, conduzindo-os a uma espécie de sentimento de "fadiga tecnológica". As investigações mais recentes revelaram que as tecnologias de vídeo interactivo (IV) são mais vantajosas por possuírem maior capacidade de armazenamento de informação, maior qualidade áudio, maior flexibilidade e adaptabilidade, devido ao facto de permitirem um input através de teclado. Por outro lado, as tecnologias de compacto disco interactivo (CDI) têm como aspectos mais positivos a simplicidade e portabilidade, embora uma das principais desvantagens seja a reduzida possibilidade de adaptabilidade.

Em geral, designam-se por ambientes de aprendizagem os ambientes computacionais que, tendo sido desenhados para tal, criam situações que conduzem os alunos ao processo de aprendizagem. Durante as três últimas décadas foram surgindo diferentes modelos que conduziram a diferentes concepções da aprendizagem.

Nos anos 80 do século passado ocorreu uma exploração das novas tecnologias no domínio pedagógico. Esta exploração conduziu a transformações significativas ao nível dos conteúdos, objectivos, métodos, técnicas e meios pedagógicos. Valerá a pena determos a nossa atenção sobre a importância de alguns ambientes de aprendizagem.

a. Ensino a Distância (EAD). Tendo feito o seu aparecimento nos finais dos anos 70 e princípios dos anos 80 do último século, o EAD tornou-se uma valiosa componente de muitos sistemas educativos. A fundação de Universidades Abertas, o desenvolvimento de tecnologias da comunicação e do ensino assistido por áudio, vídeo e computador, a nova sofisticação no design dos materiais escritos e o desenvolvimento de sistemas mais aperfeiçoados de apoio ao formando, contribuíram para a disponibilidade e qualidade dos programas do mesmo. O EAD define-se como uma modalidade de ensino e aprendizagem em que os educandos se encontram separados, no tempo e espaço, dos educadores. Desde a sua origem até hoje tem recorrido a diferentes técnicas, meios de comunicação e estratégias de ensino-aprendizagem, até chegarmos hoje ao uso generalizado do multimédia, da informática e das telecomunicações avançadas, com potencialidades de trabalho mais atractivas e maior eficiência na aprendizagem. Contrariamente ao ensino tradicional, o EAD dá um significado radicalmente novo ao conceito de independência do aluno. Este é responsável pelo início do processo de aprendizagem e, em grande parte, pela sua manutenção. Esta modalidade de ensino tem sido utilizada com sucesso no Centro Naval de Ensino a Distância (CNED) da Marinha Portuguesa. Outra experiência bem sucedida da utilização do EAD no âmbito das Forças Armadas Portuguesas foi o caso do Curso Geral de Guerra Aérea7 (CGGA), ministrado pelo Instituto de Altos Estudos da Força Aérea. Este curso estava estruturado em duas fases, sendo a primeira não-presencial e a outra presencial ou residente. O recurso às novas tecnologias disponiveis permitia a frequência da primeira fase do curso por uma comunidade de militares física ou geograficamente distantes do IAEFA. Entre essas tecnologias incluia-se a telemática, que, como ferramenta complementar, permitia a efectivação do EAD. A FAP conseguiu, por esta via, encurtar o período de permanência dos oficiais-alunos no IAEFA, disponibilizando-os para o desempenho das suas tarefas ou actividades normais na sua área de colocação, sem prejuizo para a sua formação.

b. Ensino Assistido por Computador (EAC). O EAC começou por utilizar programas que, seguindo as perspectivas do behaviorista Skinner,8 serviam para resolver problemas, fazer exercícios, sendo utilizados como apoio suplementar de diferentes áreas disciplinares dos currículos escolares. O desenvolvimento da tecnologia informática e o aparecimento de novas concepções sobre a aprendizagem—concretamente as teorias construtivistas—permitiram a exploração de novo software. Os programas rígidos foram substituídos por ambientes flexíveis em que o aluno desempenha um papel activo. A exploração do programa é pessoal, o que explica que um mesmo programa possa conduzir a aprendizagens diferenciadas. Os novos programas têm em conta não só o nível intelectual dos alunos, mas também as suas expectativas, o seu modo de saber e procurar informação. São fortemente interactivos e valorizam o percurso pessoal de aprendizagem.

O EAC é uma metodologia que evidencia um conjunto de vantagens quer em relação ao formando, quer em relação à formação, quer ainda em relação à instituição que decide pela sua adopção.9 Quanto à formação, destacam-se algumas vantagens, nomeadamente, a redução e simplificação da monitoragem e a simplificação do processo de avaliação. As instituições beneficiam igualmente de vantagens, particularmente com a redução significativa das despesas (viagens, salários) e do tempo de formação.

c. Telemática. A Telemática (concatenação das palavras Telecomunicações e Informática) consiste na comunicação entre computadores através das telecomunicações.10 A telemática permite que os alunos acedam a dados suficientemente vastos, significativos e relevantes favorecendo o trabalho inter-escolas. Possibilita ainda o acesso a bases de dados e outros serviços nomeadamente a informações habitualmente indisponíveis ou de difícil acesso tendo em conta o preço e a localização. A telemática tem componentes muito positivas: favorece a sociabilização dos alunos, particularmente o desenvolvimento de relações de solidariedade, do reconhecimento do outro, da expressividade. Permite que os educandos passem a ter, nas suas actividades, uma audiência real. De entre as várias formas de interacção telemática, podem destacar-se a teleconferência, o correio electrónico, o hipertexto ou hipermédia e a Internet. De seguida serão abordadas algumas destas formas.

(1) Teleconferência. A Teleconferência é um sistema de comunicação electrónica entre três ou mais participantes geograficamente distantes e que ocorre em tempo real. Dependendo dos meios através dos quais se efectua a teleconferência, ela pode subdividir-se em audioconferência, computador-conferência e vídeoconferência. Na audioconferência os meios usados são telefones de altifalantes ou especiais e pode fazer-se recurso de outros meios como a telecópia, o telex e outros. Computador-conferência é uma forma de comunicação electrónica, com a particularidade de se efectuar entre computadores ou terminais de computador ligados ou não a um computador central. A vídeoconferência é mais uma forma de teleconferência. Permite o estabelecimento de comunicação entre monitores de vídeo com eventual recurso a gateways para interligação dos participantes. Permite a transmissão simultânea de voz, imagem e dados. Este sistema de comunicar poderá estar disponível na Internet e na rede de televisão por cabo, funcionando em tempo real. Funcionando nestes termos, permite a troca rápida de informação entre os intervenientes situados em locais geograficamente distantes.

(2) Correio Electrónico. O Correio Electrónico é um meio de comunicação que permite a emissão e recepção de informação entre intervenientes situados em locais geograficamente distantes. Permite a transmissão de texto, voz e imagens. Pode assumir diversas formas, entre elas a telecópia, a televoz, a transferência electrónica de documentos e outras.

(3) Internet. A Internet é uma rede computacional mundial. Ela veio confirmar a vocação universal do computador. Iniciada nos Estados Unidos para satisfazer necessidades de pesquisa científica de carácter militar, a sua finalidade consistia na criação de plataformas de comunicação. Através dela qualquer cidadão pode hoje aceder a um conjunto de recursos que englobam a videofonia, a vídeoconferência, a difusão de informação, a troca de mensagens electrónicas para participar em encontros de informação telemática e enviar correio electrónico. Pelo seu conceito de liberdade, de gratuitidade de uso e pelas diferentes formas de pesquisa, a Internet prefigura o meio de troca de informação mundial do futuro, sendo já o meio de comunicação privilegiado de formação e educação a distância. O inconveniente maior da Internet é, paradoxalmente, um dos seus maiores interesses: a sua liberdade. Se é inegável que os jovens podem encontrar nela conteúdos prejudiciais à sua formação, é igualmente inegável que este problema não é substancialmente diferente dos problemas levantados por outros documentos ou suportes informativos. Outro problema levantado frequentemente pelo uso da Internet é o da profusão da informação, que pode dificultar a sua pesquisa e gestão.

d. Computer Based Training (CBT). Os programas de CBT podem ser um precioso auxiliar na apresentação de material visual. O CBT é um sistema de treino baseado no computador, apoiado em software específico, produzido especialmente para esse efeito. Permite a utilização do computador para ajudar, definir ou apoiar um processo relacionado com o treino e assenta na visualização pormenorizada de ilustrações ou imagens animadas dos componentes ou órgãos dos artefactos ou aparelhos. O CBT é um sistema interactivo com animação tridimensional. Trata-se de uma ferramenta essencial em certos tipos de aprendizagem, particularmente nas de carácter técnico. Este sistema é baseado na nova tecnologia óptica ou video-disco, sendo os seus leitores controlados por computador. Com efeito, uma ilustração pode ter uma importância funcional na interacção entre o aluno e o programa. Se é certo que o tipo de pesquisa, processamento e captação de informação varia de indivíduo para indivíduo, o material visual pode ser muito útil a quem dele precisa. Por conseguinte, uma ilustração deve ter uma relação clara com o material da aprendizagem. Quando as ilustrações para CBT são desenhadas é necessário atender a certos aspectos tais como o nível de abstracção (quanto maior for a fidelidade à realidade mais conseguida é a aprendizagem), a ambiguidade (uma ilustração deve ser facilmente compreendida, nunca devemos assumir que uma ilustração fala por si), a quantidade de detalhes (nas imagens reais a ilustração deve ser mais detalhada); interactividade (recomenda-se a integração de materiais visuais), a uniformidade (o CBT deve possuir uma uniformidade de ilustrações e textos, até porque as ilustrações podem distrair o formando), a cor (o uso da cor depende do tipo de ilustração), o nível de proficiência ( as ilustrações devem permitir que os alunos descubram algo por si próprios) e os tipos de conteúdos (os diagramas são preferíveis às ilustrações quando pretendemos explorar certas propriedades e mostrar certos processos).

Na prática, as capacidades das ilustrações e os aspectos técnicos que lhe são inerentes, como a capacidade de resolução da imagem, as suas funções, os grupos-alvo a que se destinam são os factores mais significativos em relação à sua implementação. Devem ser usadas por motivos didácticos e não por motivos estéticos. Também neste caso se contam algumas experiências bem sucedidas no processo de ensino-aprendizagem levado a cabo pela FAP. Pode referir-se, a título de exemplo, a formação de técnicos e especialistas da área de manutenção dos sitemas de armas tecnologicamente mais evoluidos.

e. Treino Simulado. O Treino Simulado (Simulation in Training) é um método que foi incrementado como resultado da complexificação dos sistemas e equipamentos que resultaram do desenvolvimento tecnológico. A simulação representa um conjunto de operações semelhantes ao sistema real. Assim, hoje é possível, através de sistemas inteligentes de simulação, aprender a conduzir uma central nuclear, pilotar um avião, um comboio, um petroleiro gigante, construir um edifício, gerir uma empresa, uma cidade, um jardim ou efectuar operações cirúrgicas. O desenvolvimento da realidade virtual permitiu dar um passo em frente no aperfeiçoamento da aprendizagem por simulação. Esta tecnologia permite simular um espaço a três dimensões ou espaço virtual. Com esta tecnologia foram obtidos resultados muito significativos do ponto de vista didáctico.11

Um simulador é um instrumento que imita o comportamento dinâmico do sistema real. Quando usado no treino dá a ilusão de se aproximar de um sistema real no sentido de promover a aquisição e prática de competências, conhecimentos e atitudes.12 Em contexto militar, a simulação teve um desenvolvimento inicial nos treinos de voo mas gradualmente chegou a outras áreas.

É nos grupos de trabalho que a simulação desempenha um papel importante no treino, não só por bem fundadas razões relacionadas com o treino, mas também por razões de custo, segurança e protecção ambiental. A simulação não substitui necessariamente o treino. A técnica da simulação deve ser usada prioritariamente quando houver uma alta transferência do treino actual, sendo os custos do treino significativamente reduzidos, ou quando o treino se tornar difícil ou impossível por razões de segurança pessoal ou por situações pouco frequentes. Os modernos sistemas de aviões, artilharia, mísseis, tanques, comandos navais e sistemas de controlo de fogo, são muito caros quer ao nível da manutenção, quer do uso. São complexos e sofisticados. Por isso, o recurso à simulação é desejável quer por razões de efectividade do treino, quer pelos custos, segurança e protecção ambiental.

No que diz respeito à efectividade do treino, a simulação pode ser o único meio disponível para treinar estudantes. Quanto aos custos, um simulador tem geralmente custos mais baixos do que um equipamento operacional. Os primeiros estádios de aprendizagem são caracterizados pela existência de erros que podem ser profundamente onerosos em termos de recursos humanos e financeiros se o equipamento operacional for usado numa situação real. O treino de voo é um exemplo óbvio desta situação. Quanto à segurança, a simulação permite a realização de tarefas perigosas e de emergência, o treino de situações críticas e de stress em condições controladas. Quanto à protecção ambiental, é sabido que muitos treinos militares têm um impacto ambiental negativo. A simulação permite evitá-lo.

Além dos benefícios anteriormente citados, a simulação pode ser uma solução para tarefas complexas que suscitam factores causadores de distúrbios como o medo, o stress, a dispersão da atenção. A simulação permite através de actividades de monitoragem que seja dado um feedback apropriado ao treino.

Se tomarmos como exemplo os jogos de guerra facilmente perceberemos as vantagens da simulação. Os objectivos primordiais dos jogos de guerra são treinar os chefes militares para tomar decisões, dar-lhes experiência adequada, providenciar-lhes informação para que desempenhem as suas actividades de comando sob condições que não consumam recursos. A simulação permite obter com maior eficiência estes objectivos.

Conclusão

Grandes são, com efeito, os desafios lançados à educação do século XXI. Muitos afirmam que o notável progresso tecnológico e científico não trouxe mais equilíbrio entre o homem e a natureza. As sociedades humanas pressentem que a mera projecção linear da pesada trajectória do século que há bem pouco findou não augura um destino à felicidade. À massificação e ao individualismo que uma primeira geração tecnológica da informação e da comunicação vincou, ao exacerbar o modelo económico triunfante, sucede-se agora uma segunda geração tecnológica onde se começa a recuperar a ideia de interacção em rede e onde se valoriza a importância da vizinhança, ainda que virtual.

Vivemos hoje momentos de tensão. Tensão entre o local e o global, o universal e o singular, a tradição e a modernidade, em suma, a tensão eterna entre o curto e o longo prazo, alimentada hoje pelo predomínio do efémero. Não podemos dizer com segurança que estamos suficientemente preparados para enfrentar os desafios que o futuro nos lança. Rapidamente nos sentimos ultrapassados pelas tecnologias avançadas. Por conseguinte, há que definir os desafios e tensões, a fim de propor novas estratégias educativas. A própria Escola fala hoje uma nova linguagem: a linguagem da velocidade, da eficácia e da mudança. Esta nova atitude da Escola pode não ser suficiente para superar os desafios e tensões.

Pensa-se na necessidade de uma actualização constante, em reformas educativas que sejam acompanhadas da tomada de consciência dos perigos de exclusão. O ensino ao longo da vida (Lifelong Education) apareceu mais recentemente como uma proposta de solução para a mais dolorosa das exclusões—a exclusão devida à ignorância.

A valorização dos diferentes estilos cognitivos e dos ritmos pessoais de aprendizagem facilitará significativamente o processo de ensino e aprendizagem. Com efeito, uma efectiva aprendizagem deve permitir que os alunos tenham ao seu dispor uma escola-centro de recursos, com nova organização dos espaços e com novos centros de informação e documentação.

O deslocamento da relação clássica professor-aluno para um novo eixo de referência em que as ferramentas multimédia desempenham uma função de mediação, alterou significativamente a correlação de forças. A introdução de ambientes com tecnologia integrada evidenciou que o professor deixou de ser o único protagonista na veiculação da informação e do conhecimento. Sem pôr em causa a importância do professor, reconhece-se hoje que a Escola do Futuro exige que os professores desempenhem um novo papel, consubstanciado na facilitação dos processos de aprendizagem. Assim, o equilíbrio entre a competência na disciplina ensinada e a competência pedagógica, aliada à competência técnica patente na utilização das novas tecnologias, deve ser sabiamente gerido e cuidadosamente respeitado.

As telecomunicações desenvolveram modalidades de comunicação de grupo, ou seja, a possibilidade de pessoas geograficamente distantes poderem comunicar através do som e da imagem. Como consequência das aplicações apoiadas na comunicação por computador, desenvolveu-se a organização e produção de documentos sob a forma de hipertexto ou hipermédia. Por outro lado, desenvolveram-se as simulações que são programas que representam uma situação da vida real ou uma situação experimental e são particularmente valiosas para representar situações cuja exploração directa envolva elevados custos, sérios riscos ou uma execução demorada.

As diversas investigações realizadas mostraram que o Ensino Assistido por Computador, quando usado exclusivamente como suplemento do ensino tradicional, pode ter um efeito positivo, promovendo uma melhor e mais rápida aprendizagem de certas matérias. No entanto, outras investigações mostraram que esse efeito era por vezes pouco significativo. Particularmente desencorajantes foram os resultados obtidos por programas que procuravam dispensar completamente a intervenção do professor.

Os desafios da Sociedade da Informação exigem respostas eficazes daqueles que se situam no contexto educativo. Não se pode olhar para este problema como um fenómeno distante, sem efeitos significativos no nosso quotidiano. As fobias, os receios, as angústias e incertezas que o futuro gera no domínio das tecnologias da comunicação e informação devem ser por todos partilhados. No entanto, eles não devem afectar a nossa capacidade de reflexão e decisão.

Num mundo qual "aldeia global", acessível num leve gesto de digitalização, torna-se fulcral conciliar a formação com a informação que, de uma forma fácil e sedutora, se encontra disponível nas redes telemáticas. A procura, selecção, organização, tratamento, utilização e produção da informação devem ter como horizonte último de referência a pessoa humana vista como elemento vital da organização ou instituição a que pertence. Dewey afirmou que a educação "deve ajudar o aluno a funcionar sem certezas num mundo de mudanças constantes e ambiguidades que confundem".13 Num mundo em que o presente e o futuro se confundem é muito provável que a verdadeira chave para a aproximação da Escola à Sociedade da Informação esteja na capacidade humana de manipulação, uso e adaptação às novas tecnologias interactivas. A Escola e as Instituições têm revelado essa capacidade, sabendo adaptá-las ao processo educativo. Usá-la uma vez mais é ser capaz de responder aos sinais do tempo.

Notas

1. Podem considerar-se duas categorias de tecnologias: as que são capazes de processar a informação (como os computadores) e as que disseminam a informação, como os sistemas de telecomunicações. Actualmente estas duas categorias têm vindo a fundir-se, tendo como objectivo principal disponibilizar a informação com rapidez, segurança e exactidão.

2. Gianni Vattimo em "A Sociedade Transparente".

3. Daniel Bell em "The Coming of postindustrial society: a venture in social forecasting".

4. Alvin Toffler em "Os Novos Poderes".

5. Tem sido largamente demonstrado que a tecnologia mais avançada não tem qualquer utilidade para o meio educativo se o ensino não estiver adaptado à sua utilização.

6. Constatou-se que, genericamente, não possuía grande valor pedagógico porque os produtores de software não eram necessariamente peritos em questões pedagógicas e didácticas.

7. Este curso constitui, estatutariamente, condição necessária para a promoção a Oficial Superior. Por protocolo estabelecido entre a FAP e a Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), o CGGA, mediante a apresentação de um trabalho final, conferia ao oficial-aluno um diploma de pós-graduação em Estudos da Paz e da Guerra. Este diploma dava acesso a um programa de investigação a decorrer no prazo de pelo menos um ano, programa este que, cumprido com sucesso, permitia a atribuição, por parte da UAL, do grau de mestre na mesma área do conhecimento.

8. Psicólogo contemporâneo nascido nos Estados Unidos da América em 1904. Publicou, entre outros, os seguintes trabalhos: Behavior of Organisms: An Experimental Analysis, Verbal Behavior e Science and Human Behavior.

9. O EAC aumenta significativamente a disponibilidade e formação prática dos formandos, valorizando a auto-aprendizagem.

10. Por exemplo, linhas telefónicas.

11. Hoje é possível obter produtos educativos de formação inicial de auto-aprendizagem das línguas, das matemáticas e das ciências que simulam um envolvimento profundamente lúdico ("edutenimento").

12. Os pedagogos reconhecem consensualmente que a visualização de fenómenos, a representação gráfica no écran dos conhecimentos e a sua estruturação elaborada que corresponda a critérios de ergonomia cognitiva são aspectos essenciais no processo de aquisição e estruturação dos conhecimentos.

13. John Dewey (1995): Democracia y educación. Madrid. Morata, 1995.

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Colaborador

Major TMMA Joaquim Manuel Martins do Vale Lima

O Major TMMA Joaquim Manuel Martins do Vale Lima ingressou na Força Aérea Portuguesa em 5 de Janeiro 1983. Desenvolveu a sua actividade na área de gestão da manutenção de aeronaves na Base Aérea nº 1, em Sintra, entre 1984 e 1986. Frequentou o Curso de Formação de Oficiais do Quadro Permanente entre 1986 e 1988, tendo sido, depois, colocado na Direcção de Abastecimento do Comando Logístico e Administrativo da Força Aérea, onde permaneceu até 2000. Durante este período frequentou, no Instituto de Altos Estudos da Força Aérea (IAEFA), o Curso Básico de Comando (1991) e o Curso Geral de Guerra Aérea (1998/1999). No ano de 2000 foi colocado no IAEFA, onde desempenhou funções docentes e de chefe da área de ensino de Comunicação e Informação, tendo aí permanecido até 2005, altura em que foi nomeado para a frequência do Air Command and Staff Course 05/06 no Air Command and Staff College, Maxwell AFB, AL, USA. O Major Joaquim Lima possui o Curso de Formação de Formadores para o Ensino Superior, ministrado no âmbito do PRODEP—Formação de Docentes para o Ensino Superior. Possui o Grau de Licenciado em Engenharia Mecânica, conferido pelo Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, e o Grau de Mestre em Ciência Política, pela Universidade Lusófona de Lisboa.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade da Força Aérea ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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