Estratégia aérea
selecionar alvos

para produzir efeitos

Coronel Phillip S. Meilinger, USAF

Os homens do ar sempre acreditaram que o avião é uma arma intrinsecamente estratégica. O poder aéreo, operando na terceira dimensão, pode contornar o combate terrestre de nível tático e operar diretamente contra os centros de gravidade (CG) de uma nação inimiga: os lugares — industrial, político e populacional — que fazem com que um país funcione. Contudo, os teóricos do poder aéreo têm tido opiniões significativamente diferentes a respeito de que alvos específicos devem ser atacados ou neutralizados para que se obtenham os máximos resultados. Precisamos compreender as diversas estratégias de seleção de alvos aéreos, porque elas definem coletivamente as fronteiras do pensamento estratégico do poder aéreo e esclarecem a conexão entre a arma aérea e seu papel na guerra. Além disso, compreender essas idéias leva a uma percepção mais equilibrada e flexível da estratégia aérea e dos fatores que entram em sua determinação.

Dizem-nos os psicólogos que o acontecimento mais traumático na vida de uma pessoa é o nascimento. Se assim for, o nascimento do poder aéreo foi duplamente traumático, porque ele ocorreu em conjunto com a Primeira Guerra Mundial. Essa guerra esmagou impérios, fez proliferarem as ditaduras, causou a morte de pelo menos 10 milhões de pessoas e teve um efeito profundo na conduta de guerra. A perda de uma geração de homens europeus, bem como de centenas de milhares de americanos convenceu os chefes militares de que a tática e a estratégia tinham de ser alteradas. Soluções radicais receberam, portanto, mais consideração do que lhe seria originariamente dada. O poder aéreo foi uma dessas soluções radicais.

Quando um país deseja influenciar outro, tem diversos instrumentos à disposição — as “alavancas” de poder militar, econômica, política e psicológica. Dependendo dos objetivos do país, ele pode empregar essas alavancas contra outro país. Por exemplo: se o objetivo for manifestar desagrado em relação a um ditador no país A, que oprime seu povo, então o país B pode impor sanções — uso da alavanca de poder econômica — na tentativa de modificar o comportamento perverso desse ditador. O país B também pode requerer às Nações Unidas que condene o ditador e volte contra ele a opinião mundial — uso das alavancas de poder política e psicológica. Obviamente, à medida que as coisas se tornam crescentemente graves, a alavanca militar se torna mais preeminente.

Essas alavancas de poder são dirigidas contra os CG do inimigo, que podem ser a força de um país — talvez a infra-estrutura do exército ou da indústria — mas também podem ser a vulnerabilidade. Precisa-se reconhecer esta distinção. Na tentativa de curvar um inimigo à nossa vontade, atacá-lo nos pontos mais fortes não é sempre necessário nem desejável; devemos, antes, golpeá-lo nos seus pontos mais fracos se isso causar o colapso dele. Desse modo, a força de um país pode ser sua marinha, mas sua fragilidade pode, ao mesmo tempo, ser a dependência das rotas marítimas que lhe fornecem alimentos e matérias-primas. Nesse exemplo, o estrategista pode preferir evitar a força do inimigo enquanto ataca, simultaneamente, sua fragilidade. Isto é semelhante à situação da Primeira Guerra Mundial, quando a esquadra de superfície alemã permaneceu no porto, por receio da Marinha Real, enquanto os submarinos alemães desenvolveram uma campanha altamente eficaz contra os navios mercantes britânicos. Sem demasiada precisão, podem-se grupar os CG genéricos de um país em categorias de forças militares, economia e vontade popular (tabela 1). Em suma, a estratégia consiste em empregar as alavancas de poder contra os CG inimigos.

 

Tabela 1
Alavancas de poder e
centros de gravidade genéricos

Alavancas de Poder  CG genéricos
• Militar • Forças
• Econômica • Economia
• Política • Vontade
• Psicológica

Tradicionalmente, os exércitos têm usado alavanca militar de poder para operar contra forças militares inimigas (Fig.1). Isto se deveu, muito razoavelmente, ao fato de que outros CG no interior do país estavam protegidos e escudados por essas forças militares. Como conseqüência, a guerra se tornou uma competição entre forças armadas; os que perdiam a batalha expunham os CG do seu país ao vitorioso. Geralmente, a destruição ou ocupação verdadeiras eram desnecessárias. Com o interior do país exposto e vulnerável, o governo procurava fazer a paz. Embora as ações terrestres também pudessem ter efeito na economia ou na vontade do inimigo — representada na figura 1 pelas setas mais finas — essas conseqüências eram freqüentemente indiretas, e muitas vezes não eram planejadas. Não deve haver muita surpresa de que os teóricos militares, ao longo do tempo, tomassem o exército inimigo como equivalente ao principal CG, porque quando o exército caía, a resistência caía também.1 Contudo, como se notou, a Primeira Guerra Mundial mostrou que essas competições de desgaste se haviam tornado demasiadamente sangrentas — para ambos os lados — para servirem de instrumento de política racional. Soldados buscaram uma solução, mas os marinheiros e aeronautas adotaram tratamentos totalmente diferentes.

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Figura 1. Guerra Terrestre

A guerra marítima é fundamentalmente diferente da guerra na terra. As marinhas têm dificuldade de produzir impacto direto nos exércitos ou nos acontecimentos no terreno, de modo que tradicionalmente valeram-se de uma forma de guerra econômica — exemplificada pelos bloqueios, embargos e ataques ao comércio — para alcançar seus objetivos de guerra. Assim, embora as marinhas, sem nenhuma dúvida, combatam outras marinhas, na maior parte de suas ações, usam as alavancas econômica e psicológica de poder contra a economia e a vontade do inimigo (fig.2). O bloqueio e os ataques ao comércio privam um país dos alimentos e das matérias-primas de que ele necessita para levar adiante o esforço de guerra. Ao longo do tempo, a população começa a sofrer os efeitos da inanição prolongada e sua vontade de continuar a guerra se dissipa.

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Figura 2. Guerra Marítima

A guerra aérea, por sua vez, é fundamentalmente diferente tanto da guerra terrestre quanto da marítima. Os aeronautas sempre reconheceram que a capacidade do avião de operar na terceira dimensão lhe dá a capacidade singular de atacar todos os CG de um inimigo. Além disso, embora o poder aéreo opere contra a economia e a vontade do inimigo — como a marinha — ele o faz diretamente (fig.3). As marinhas bloqueiam ou põem a pique navios que carregam matérias-primas para uma fábrica processadora que transforma esses materiais em aço que é, então, transportado para uma fábrica que o transforma em armas. As aeronaves podem atacar essas fábricas e armas diretamente. Sem dúvida, todo o país inimigo se torna aberto ao ataque.

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Figura 3. Guerra Aérea

Isto, contudo, tende a complicar as coisas para o estrategista aéreo. Obviamente, os profissionais da aviação precisam ficar intimamente familiarizados com o modo pelo qual a nação inimiga funciona em seu interior. Saber que um país depende de suas estradas de ferro, de seus sistemas de canais, de seus políticos, das siderúrgicas, da rede de energia elétrica, das terras cultiváveis, do sistema telefônico, das indústrias químicas e assim por diante, é de valor prático limitado porque nem todos esses alvos podem ser atacados. Quais os CG que são mais importantes? Selecionar os alvos corretos é a essência da estratégia aérea. Contudo, o fato de que alguma coisa possa ser tomada como alvo não significa que ela seja valiosa, e uma coisa que seja valiosa não é necessariamente um alvo possível. Os planejadores aéreos dotados de percepção percebem que a destruição de conjuntos de alvos não é automaticamente equivalente à vitória. Além disso, fatores intangíveis, como religião, nacionalismo e cultura, são de importância não menor do que os atributos físicos para manter o país unido durante a guerra. A situação tornou-se ainda mais complexa com a introdução de um número enorme de “novos alvos” críticos para o funcionamento de um estado moderno: circuitos de fibra ótica, satélite de comunicações, usinas nucleares e os novos meios eletrônicos referidos freqüentemente como “ciberespaço”, que desempenham papel crescentemente importante em todos os aspectos da vida pessoal e profissional. Como deve um aeronauta moderno arrumar tudo isto? Uma representação esquemática de um país moderno ilustra o problema e talvez, também, aponte uma solução (fig.4).

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Figura 4. A nação-estado ideal

A chave de toda guerra é o fator amorfo e amplamente não-quantificável conhecido como “vontade nacional”. Ele ocupa o lugar central no esquema porque é o aspecto mais crucial no país em guerra. No seu sentido mais básico, a guerra é psicológica. Assim, no sentido mais amplo, a vontade nacional é sempre o CG fundamental — quando “o país” decide que perdeu a guerra , então, e só então, a guerra está verdadeiramente perdida. Contudo, isso, na verdade, diz muito pouco. O desafio óbvio para o estrategista é determinar como despedaçar ou, pelo menos, fraturar essa vontade coletiva. Sendo um agregado de tantos fatores diferentes, e não tendo forma física, dificilmente é possível atacar diretamente a vontade nacional. Em vez disso, precisa-se tomar como alvo as manifestações dessa vontade. Num sentido geral, essas manifestações podem ser chamadas de “capacidade militar”.

A capacidade militar é a soma dos atributos físicos do poder: terra, recursos naturais, população, finanças, indústria, governo, forças armadas, redes de transporte e comunicações e assim por diante. Quando essas coisas tiverem desaparecido ou sido destruídas — quando não tiver sido deixada capacidade com que combater — então a vontade nacional ou expira ou se torna desimportante. Assim, no esquema apresentado aqui, a capacidade militar está estreitamente ligada à vontade nacional. Pelos mesmos motivos, sendo a capacidade militar o centro do ser de uma nação e a soma do poder físico total de um país, é extremamente difícil destruí-la por completo. O fundamental é furar seletivamente esta concha resistente da capacidade militar em um lugar ou em diversos lugares, expondo, desse modo, o núcleo macio. Por meio dessas aberturas, pode-se perfurar, espetar, modelar e influenciar a vontade nacional. Na maior parte dos casos, a vontade entra em colapso sob essa pressão antes que se tenha exaurido a capacidade.2

Os pontos nodais que rodeiam o núcleo central são os CG de fato que podem ser selecionados como alvos. Como se observou acima, no passado, as forças armadas e o território do inimigo eram geralmente os focos das operações, porque eram os mais acessíveis. Freqüentemente, se o exército fosse derrotado ou se uma província de localização estratégica fosse tomada, seguir-se-ia um acordo negociado. As novas capacidades ofereceram novas oportunidades. A história da estratégia é a história da seleção de alvos — tentar descobrir que CG é o mais importante em um dado local, momento e situação. Embora os teóricos aeronautas talvez concordem em que o poder aéreo é intrinsecamente estratégico, geralmente têm discordado vigorosamente a respeito de quais alvos são mais apropriados para alcançar os objetivos estratégicos. O que se segue é um sumário das várias correntes da teoria de seleção de alvos no poder aéreo.

O General Giulio Douhet acreditava que a população fosse o alvo primordial de um ataque aéreo e que um cidadão médio, especialmente o habitante da cidade, entraria em pânico em face de um ataque aéreo.3 A experiência limitada da Primeira Guerra Mundial parecia apoiar essa suposição. Douhet, entretanto, convenceu-se de que fazendo cair uma mistura de bombas incendiárias químicas e altamente explosivas nas principais cidades de um país causaria um estrago e uma perturbação tais que seria inevitável a revolta e subseqüente rendição. Embora suas predições em relação à fragilidade dos centros vitais de um país e à fraqueza da resolução do povo se tenham revelado um erro grosseiro na Segunda Guerra Mundial, sua premissa básica manteve-se atraente pelo tempo afora.

Felizmente, os equivalentes americanos e ingleses a Douhet viram no poder aéreo a esperança de tomar outras coisas que não o povo como alvos. A doutrina aérea nos Estados Unidos e na Inglaterra, durante o período entre as duas guerras mundiais, concentrou-se na infra-estrutura industrial do inimigo, não em sua população. Deste ponto de vista, o estado moderno era dependente da produção em massa de bens militares — navios, aeronaves, caminhões, artilharia, munição, uniformes e assim por diante. Além disso, coisas essenciais como energia elétrica, aço, substâncias químicas e petróleo também eram alvos militares de grande importância, porque eram os elementos essenciais para a elaboração de outros bens militares necessários para manter o esforço de guerra.

Nos Estados Unidos, as idéias do Brig Gen Billy Mitchell influenciaram fortemente a Air Corps Tactical School, cujo corpo de instrutores aperfeiçoou uma doutrina que procurava gargalos industriais — as fábricas ou funções que eram parte integrante da operação eficaz do sistema inteiro.4 Essa idéia de “rede industrial” concebia o país inimigo como um sistema integrado, com partes que se apoiavam umas às outras, mas que, como um castelo de cartas, era suscetível de destruição súbita. Se o gargalo certo fosse atacado ou neutralizado, todo o edifício industrial poderia ruir.5 Foi essa doutrina que as Army Air Forces levaram para a Segunda Guerra Mundial.

A Força Aérea Real (RAF), chefiada pelo Marechal-do-Ar Hugh Trenchard, adotou um tratamento ligeiramente diferente. O próprio Trenchard havia testemunhado a reação extrema da população e de seus líderes políticos aos ataques aéreos alemães sobre a Inglaterra, em 1917 e 1918. Afinal, esses ataques levaram à criação da RAF. Ele argumentava, como Douhet, que os efeitos psicológicos do bombardeio eram superiores aos efeitos físicos. Ao contrário do general italiano, porém, Trenchard não acreditava que atacar o povo diretamente fosse a estratégia correta para produzir o trauma psicológico.6 Essa política era duvidosa moral e militarmente. Em vez disso, ele defendia algo semelhante à estratégia da Air Corps Tactical School: a infra-estrutura industrial de um país era o alvo apropriado. Ele raciocinava que a perturbação da vida normal — perda de empregos, salários, serviços, transportes e bens — seria tão profunda que o povo exigiria a paz. Em poucas palavras: enquanto os americanos queriam bombardear a indústria para destruir a capacidade, Trenchard e a RAF procuravam bombardear a indústria para destruir a vontade nacional.

O outro oficial da RAF, o comandante de ala John C. Slessor, atracou-se às complexidades da teoria aeronáutica no período que medeia as duas grandes guerras.7 Ele argumentou que as linhas de suprimento e as comunicações do exército inimigo eram os CG fundamentais e que se o sistema de transporte do inimigo fosse estragado e neutralizado, não apenas o exército inimigo seria incapaz de oferecer resistência eficaz mas, também, todo o país estaria paralisado e vulnerável. Essa paralisia, por sua vez, teria um efeito decisivo tanto na capacidade da nação inimiga quanto em sua vontade. Em essência, Slessor defendia a interdição aérea em nível estratégico e operacional. De maneira significativa, a RAF fez muita força em favor de uma campanha aérea dessa maneira contra a Alemanha, em 1944. O “plano de transporte”, como foi chamado, revelou-se, sem dúvida, bem sucedido em assegurar o êxito do desembarque na Normandia, restringindo drasticamente o fluxo de reforços alemães às áreas de entrincheiramento. Além disso, a completa destruição do sistema ferroviário alemão na Europa ocidental teve efeitos arrasadores em todo o esforço de guerra na Alemanha, como Slessor havia predito.

De maneira significativa, a maior parte das pessoas e teóricos mencionados até aqui são do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Na verdade, o uso maciço e decisivo do poder aéreo nessa guerra deveria ter feito proliferar o surgimento de novas idéias nos anos subseqüentes. Infeliz e surpreendentemente, isto não aconteceu. Os ataques atômicos ao Japão tiveram um efeito tanto catalisador quanto entorpecedor nos líderes militares de todo o mundo. A nova arma parecia revolucionar a guerra de maneiras que tornavam toda a experiência anterior obsoleta. Como conseqüência, surgiu um grupo diferente de teóricos que tentaram explicar o uso da força militar na nova era. Esses teóricos, contudo, não eram militares. Em vez disso, uma nova estirpe de acadêmicos civis com pouca, ou nenhuma, experiência de guerra, surgiu para definir e articular as teorias da guerra nuclear. Uma vez que ninguém havia tido experiência desse tipo de guerra, os acadêmicos civis pareciam capazes de visualizar uma teoria da guerra nuclear aérea tão bem quanto os profissionais da farda. As idéias que eles propuseram — equilíbrio do terror, destruição mutuamente assegurada, suficiência estratégica e similares — eram elegantes e intelectualmente elaboradas. Elas serviram bem o Ocidente durante toda a Guerra Fria. Infelizmente, contudo, os aeronautas militares abandonaram o campo intelectual aos civis de maneira demasiadamente rápida e fácil. Ao mesmo tempo, os militares aceitaram a premissa de que as guerras futuras envolveriam armas nucleares. O resultado foi que poucos aeronautas pensaram seriamente no uso do poder aéreo convencional, especialmente em nível estratégico.

A Guerra do Vietnã teve numerosos efeitos negativos tanto nos Estados Unidos quanto nas forças militares. Um aspecto positivo, entretanto, foi a percepção crescente de que a guerra nuclear entre duas superpotências era um exercício intelectual interessante, mas dificilmente teria probabilidade de ocorrer, senão por outros motivos, porque estávamos demasiadamente preparados para travá-la. Ao mesmo tempo, o poder aéreo tático parecia não ser uma arma capaz de vencer a guerra, como ficou amplamente demonstrado no Vietnã. Enquanto o poder aéreo tornou-se polarizado entre aqueles que pensavam apenas no holocausto nuclear e os que se preparavam para combater numa batalha aerotática, as condições do mundo pareciam indicar que nenhum dos extremos apresentavam resultados úteis e decisivos. O vasto terreno intermediário entre esses dois pólos precisava ser recapturado. A revitalização do pensamento estratégico convencional começou com um instrutor da Fighter Weapons School, na Base Aérea Nellis, Nevada — o Cel John Boyd.


O uso maciço e decisivo do poder aéreo nessa guerra deveria ter feito proliferar o surgimento de novas idéias nos anos subseqüentes. Infeliz e surpreendentemente, isto não aconteceu.


Boyd ficara intrigado pelo êxito surpreendente dos F-86 no combate aéreo com os MiG-15 (uma superioridade de 10 para 1) durante a Guerra da Coréia.8 Refletindo, ele chegou à conclusão de que a vantagem dos F-86 residia amplamente nos seus controles de vôo operados hidraulicamente e no estabilizador horizontal inteiramente móvel que permitiam-lhe mudar de uma manobra aérea para outra mais rapidamente que o MiG. Uma reflexão adicional revelou as implicações mais amplas dessa teoria: o fundamental para a vitória era agir mais rápido que o inimigo, tanto mental quanto fisicamente. Boyd exprimiu essa idéia em um processo cíclico que ele chamou o ciclo de observar-orientar-decidir-agir (OODA)(fig.5). Assim que um lado agia, observava as conseqüências e o ciclo começava novamente. A parte mais importante desse ciclo era a parte de “orientar”. Boyd especulava que as crescentes complexidades da guerra moderna necessitariam da capacidade de colher fatos e idéias aparentemente isolados, de disciplinas e acontecimentos diferentes, desconstruí-los em termos de seus componentes essenciais e, então, reuni-los de novo de maneiras novas e incomuns. Ele chamou esse processo de destruição e criação — um processo que dominaria a fase de orientação de seu ciclo OODA.

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Figura 5. Ciclo OODA de John Boyd

O significativo nas teorias aerotáticas de Boyd é que ele, mais tarde, formulou a hipótese de que esse ciclo em contínua operação desempenhasse um papel não apenas no combate aerotático mas, também, nos níveis superiores da guerra. Reconstituindo a história da guerra, Boyd percebia a vitória indo, de maneira coerente, para o lado que podia pensar de maneira mais criativa — orientar-se — e, então, agir rapidamente com base nesse descortino. Embora os historiadores militares tendessem a empalidecer ante um uso tão seletivo da história, a tese é interessante. Por causa da ênfase na fase de orientação do ciclo, Boyd estava apelando, em termos práticos, para uma estratégia dirigida contra a mente da liderança inimiga. Embora apresentada por um aeronauta, essas teorias abrangiam muitíssimo mais do que uma planta das operações aéreas. A guerra em geral era governada por este processo. Nada obstante, por causa da ênfase do ciclo OODA na velocidade e na surpresa desorientadora que inflige ao inimigo, as teorias de Boyd parecem adequar-se particularmente ao poder aéreo, que corporifica de maneira mais plena essas duas qualidades.

Um outro aviador pensou profundamente a respeito do poder aéreo estratégico e se concentrou na liderança inimiga como CG fundamental: o Cel John Warden. Piloto de caça e veterano de combate, tal qual Boyd, Warden começou um estudo sério e permanente da guerra aérea quando era aluno do National War College, em 1986. A tese que ele escreveu naquele ano foi logo publicada e ainda é um texto padrão na Air University.9 Sua designação subseqüente para o Pentágono o colocou em posição ideal quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait, em abril de 1990. Colocando suas teorias em prática, Warden planejou uma campanha aérea que exigia ataques estratégicos contra os CG do Iraque.10 Para ilustrar o plano, ele usou o alvo que consistia em cinco anéis concêntricos, com a liderança na mosca — o CG mais importante e mais frágil — e as forças armadas no anel exterior — o elemento menos importante, mas, também, mais difícil. Warden postulou que o líder inimigo era fundamental para a resistência; matá-lo ou capturá-lo incapacitaria todo o país. É visível que tanto Boyd quanto Warden afastaram-se da ênfase econômica dos teóricos anteriores do poder aéreo. Em vez disso, concentraram-se na liderança inimiga. Contudo, enquanto Boyd procura perturbar o processo da liderança inimiga, Warden deseja estragar sua forma. O epítome dessa estratégia aérea foi a Guerra do Golfo. Ataques aéreos contra a rede de comunicações, estradas e sistemas ferroviários e rede elétrica do Iraque tornaram extremamente difícil, fisicamente, para Saddam, controlar suas forças militares, mas, também, introduziram uma confusão e uma incerteza gigantescas no seu processo de tomada de decisão. Isso serviu para expandir seu ciclo OODA espetacularmente e, de maneira correspondente, diminuir sua velocidade.

A guerra de informação tornou-se uma indústria crescente. Aparentemente, todas as pessoas no mundo têm ou terão brevemente uma máquina de fax, um telefone celular, um poderoso microcomputador e acesso à Internet. Como resultado, o andamento acelerado das trocas de informações tornou-se tanto um ponto forte quanto uma vulnerabilidade para um país moderno. Presumivelmente, conhecimento é poder. Quem controla o fluxo da informação tem uma vantagem tremenda: “informação perfeita” para si próprio e ignorância imposta ao inimigo, por meio ou do impedimento ou da informação corrompida. É claro que a informação — definida amplamente como informações, reconhecimento e comunicações — não é uma coisa nova. Contudo, a explosão dessa informação em volume e disseminação — tornada possível por tecnologias como microchips, fibras óticas e satélites — está dando uma intensidade nova a uma idéia antiga. A capacidade de dominar a informação é freqüentemente referida como “infoguerra” e quase supõe um ente físico, chamado algumas vezes de infoesfera, em que a informação reside ou pela qual é canalizada. Essa infoesfera é, desse modo, um CG potencialmente muito importante e um que tem implicações para como a futura guerra aérea talvez seja conduzida.

Um outro traço “novo” na teoria militar sublinha os aspectos culturais do conflito. Embora as manifestações físicas do poder sejam as mais discerníveis — as mais fáceis de quantificar e alvejar — os aspectos culturais e sociais de uma sociedade também são cruciais. John Keegan, por exemplo, argumentou que o modelo clausewitziano de guerra está prejudicado, porque presume que o conflito ocorra entre nações-estado que são o que se poderiam chamar “atores racionais” (isto é, tomando decisões relativas à paz e à guerra baseadas em cálculos lógicos apoiados na política). Keegan sustenta que esses fatores explicam apenas alguns motivos da guerra. Outras sociedades estão muito mais intensamente fundamentadas em uma cultura. Ele cita exemplos dos zulus, na África, dos cossacos siberianos e dos samurais japoneses para demonstrar que alguns grupos fazem a guerra porque é tradicional, o rito de passagem para a condição adulta ou uma válvula de escape para liberar o excesso de energia.11 Nessas culturas, o que os ocidentais chamariam de causas tradicionais da guerra e da paz são amplamente irrelevantes. O significado deste argumento não é o de que pequenos grupos ou nativos isolados tenham em épocas do passado ido à guerra por motivos que consideraríamos exóticos. Antes, se esses fatores estão presentes em alguns povos, estão presentes em todos os povos. Em sociedades mais modernas, contudo, esses fatores culturais são subsumidos ou obscurecidos pelos imperativos políticos mais tradicionais, mas não são substituídos por eles. Assim, todos os povos e países fazem ou deixam de fazer coisas baseados em um conjunto de razões — algumas materiais e algumas culturais e psicológicas. Os estrategistas militares precisam ter consciência de que estão tratando com um inimigo que é parcialmente racional e parcialmente irracional e que é motivado por razões tanto de política quanto de paixões. Quando um país moderno é dominado por uma visão de mundo que aparentemente é completamente estranha à perspectiva clausewitziana, torna-se extremamente complexo o problema do estrategista aéreo.


Os estrategistas militares precisam ter consciência de que estão tratando com um inimigo que é parcialmente racional e parcialmente irracional e que é motivado por razões tanto de política quanto de paixões.


Pode-se argumentar, por exemplo, que a fé apaixonada do fundamentalismo islâmico efetivamente mantém junto o Irã moderno — não os recursos do petróleo ou os laços políticos tradicionais de um país ocidental. Em vez da idéia de que o estado iraniano usa a religião como instrumento de sua política, pareceria que o Islã radical usa o estado como instrumento para alcançar suas metas religiosas. Os estrategistas aéreos que já passaram por dificuldades bastantes tentando prever os efeitos e as respostas quando tratam com um “inimigo semelhante”, ao tratarem com inimigos diferentes têm o problema grandemente acrescido. Não obstante, perceber a importância desses fatores intangíveis, como a cultura do inimigo, é crucial para o planejador militar. O fato de que algo talvez não tenha forma física não significa que não seja importante — nem significa que não possa ser atacado. Nesses casos, podem ser decisivas operações de guerra psicológica — uso da propaganda, ardis, dissimulação, desinformação e talvez, até, a verdade. No meu esquema, essas conexões intangíveis, mas vitais, estão representadas pelas linhas pontuadas ligando os CG físicos um ao outro e ao núcleo nacional (veja-se fig.4).

Neste ponto, é útil introduzir alguns termos novos usados para descrever a estratégia aérea. A estratégia de guerra é impor ao inimigo nossa própria vontade, destruindo sua vontade ou sua capacidade de resistir. Um debate ainda em curso discute se é mais desejável e factível concentrar-se na vontade do inimigo ou na sua capacidade. Em conseqüência, os pensadores e estrategistas militares freqüentemente podem ser classificados em duas categorias: a primeira inclui os que se concentram em buscar métodos de confundir, iludir, intimidar ou influenciar de alguma outra maneira a mente do inimigo, na esperança de despedaçar sua vontade e, desse modo, provocar a rendição. A outra escola, mais material e direta, acredita que se atacarmos as forças militares do inimigo ou sua infra-estrutura industrial, afastando, desse modo, sua capacidade de resistir, então, deve seguir-se a rendição. Algumas pessoas, especialmente as que se especializaram em ciências sociais, têm dado novos nomes a essas idéias antigas e se referem a estratégias de coerção e de denegação. Os defensores desses dois campos têm-se envolvido em um debate vigoroso ao longo da última década. Na verdade, é virtualmente impossível separar esses dois tipos de estratégias na prática. Se, digamos, for essencial atacar as forças inimigas para denegar-lhe a capacidade de combater, então, é altamente provável que essa incapacidade também tenha um efeito coercivo forte sobre a vontade do inimigo. De maneira oposta, se um ataque às refinarias de petróleo do inimigo tiver a intenção de romper sua vontade porque destrói algo que é de valor para ele, então, ao mesmo tempo, a perda de receita correspondente ao valor de petróleo perdido diminuirá sua capacidade de combater. Portanto, a questão se torna uma questão de ênfase.

Em grande medida, a escolha da estratégia será determinada pelos objetivos e pela natureza da guerra. Em uma guerra total, quando as metas são a rendição e a subjugação do inimigo, a destruição da vontade e da capacidade do inimigo será provavelmente necessária. Desse modo, na Segunda Guerra Mundial, os aliados dirigiram a guerra tanto contra a vontade da Alemanha quanto contra sua capacidade — coerção e denegação.

De maneira parecida, no caso do Iraque, ambas as estratégias foram empregadas, embora por diferentes razões: a coalizão queria coagir Saddam a deixar o Kuwait, mas também queria denegar-lhe a capacidade de permanecer uma ameaça ofensiva à região, a partir daquele momento. Outros conflitos, como o de Kosovo, são mais problemáticos em relação ao tipo da estratégia empregada. A Organização do Tratado do Atlântico Norte procurou coagir a Sérvia a interromper sua purificação étnica em Kosovo. A coerção deveria acarretar o ataque de alvos de grande valor na própria Sérvia, mas os planejadores também utilizaram uma estratégia de denegação, selecionando como alvos as forças militares e a infra-estrutura sérvia em Kosovo. Slobodan Milosevic rendeu-se, mas teria sido o ataque aos alvos para coerção ou para denegação que o levou a essa decisão? Talvez jamais saibamos. Precisa-se perceber, contudo, que a escolha da estratégia terá um efeito significativo em relação aos alvos selecionados para ataque aéreo — linhas de transmissão elétrica versus fábricas de munição versus parques ferroviários versus peças de artilharia. Nossas metas políticas e a natureza da guerra determinarão a estratégia aeronáutica mais eficaz a ser empregada.12

A tarefa do estrategista aéreo é compreender essas várias teorias de fixação de alvos e selecionar uma, ou a combinação de diversas delas, para transformá-las em um plano capaz de funcionar. Isso se faz propondo primeiro três questões fundamentais: Qual é o objetivo? Quanto vale alcançar esse objetivo? Quanto vale para o inimigo impedir o opositor de alcançá-lo? Então, o estrategista aéreo precisa conceber um plano que envolva transformar metas amplas em objetivos militares específicos, identificando os conjuntos de alvos que precisam ser afetados (não necessariamente destruídos) para alcançar esses objetivos e, então, converter esse conjunto em ordens de operações que possam ser implementadas.13 Não há como exagerar a importância de conectar claramente os alvos escolhidos com os objetivos buscados. O que se espera, especificamente, que o inimigo faça se sua rede elétrica for bombardeada? Se o objetivo geral é forçar o inimigo a interromper uma invasão, então, como contribuirá o ataque à rede elétrica — ou às fábricas de munição ou divisões blindadas ou quartéis de órgãos de informação — para alcançar essa meta? Em outras palavras, destruir ou neutralizar um alvo não significa que se esteja de nenhum modo mais próximo de atingir as próprias metas. O processo intelectual de conectar fins com meios é uma exigência crucial para o estrategísta aéreo, embora seja negligenciado com demasiada freqüência.

Talvez um dos fatores mais importantes a recordar em toda essa discussão dos CG é que a sociedade é um organismo vivo que reage a uma miríade de estímulos internos e externos. Sem dúvida, todos os CG nesse esquema estão conectados uns aos outros, para ilustrar que um ataque a um deles geralmente terá impacto sobre todos eles. Desse modo, atacar a indústria afetará a capacidade militar genérica de um país, o que também afetará a capacidade nacional. Por sua vez, tanto poderá ocorrer que a vontade seja danificada quanto, mais provavelmente, poderá ocorrer que os líderes enviem um sinal para dirigir mais pessoas-recursos a fim de reconstruir as indústrias danificadas. O organismo reagirá para opor-se à ameaça. Em poucas palavras (e isto é de importância crucial) este esquema representa um ente vivo — que é precisamente o que é um país — que pode agir e reagir a vários estímulos. E ele pode fazer isso de modos que não são necessariamente previsíveis. Pode mover-se, desviar-se, mudar de aparência, defender-se, entrar em pânico e/ou tornar-se adamantino. Não há dúvida de que os organismos desenvolvem tecido cicatricial depois de terem sido feridos, o que, algumas vezes, torna ferimentos subseqüentes menos graves. Como resultado, em certa medida, o segundo ataque fere um organismo diferente daquele que sofreu o primeiro ataque. De modo correspondente, os resultados também podem ser diferentes. Assim, a tendência para ver um país inimigo segundo um modelo bidimensional inanimado é extremamente perigosa, porque supõe condições estáticas de laboratório que estão muito longe de ser o caso. É uma grande loucura impor racionalidade a uma sociedade inimiga por meio de simulações de computadores e modelos. A guerra jamais poderá ser completamente racional — não mais do que as pessoas que combatem nela.

Deve-se também compreender que os CG de um país não são necessariamente os de outro. No caso do Japão, durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, as rotas marítimas eram vitais porque muitas das matérias-primas necessárias vinham do continente asiático e das Índias Orientais. Contudo, as rotas marítimas não eram vitais para a Alemanha nazista. Como Hitler controlava a maior parte da Europa, era largamente auto-suficiente em matérias-primas e mal era afetado pelo bloqueio aliado. De maneira semelhante, um país autocrático como a Alemanha nazista pode ser mais dependente da personalidade e do poder do líder do que uma democracia com uma linha de sucessão claramente estabelecida, no caso da morte do líder.

Além disso, não apenas os CG são, muitas vezes, diferentes entre países, mas podem mudar ao longo do tempo no mesmo país. Durante a Batalha da Inglaterra, por exemplo, a RAF experimentou uma perigosa carência de pilotos e aeronaves. Se a Luftwaffe tivesse continuado a atacar os aeródromos da RAF no outono de 1940, esse CG inglês fundamental talvez se tivesse rompido. No ano seguinte, contudo, a RAF já não estava nesses apuros, porque havia uma quantidade muito maior de aviões e de pilotos. Nessa época, contudo, o CG inglês fundamental se havia movido para o Atlântico. Os submarinos alemães estavam afundando os navios britânicos em um ritmo alarmante e havia uma séria preocupação de se a Inglaterra poderia ou não suportar isso por muito tempo. De maneira significativa, esse CG fundamental também mudou quando os Estados Unidos entraram na guerra e a maciça injeção de capacidade de transporte por navios aliviou a dificuldade britânica.

Se se concordar em que um país inimigo é um organismo vivo composto de múltiplos CG que agem e reagem um com o outro e com o mundo exterior, então seguem-se diversas conclusões. Primeiro, o poder aéreo é uma arma especialmente eficaz para afetar esses CG. A maior parte dos centros vitais observados acima são físicos e podem ser diretamente selecionados como alvos. Sem dúvida, porque são na maior parte imóveis e, assim, vulneráveis — como rede elétrica, circuito ferroviário ou complexo fabril, por exemplo — freqüentemente são especialmente suscetíveis aos efeitos do poder aéreo. Outros tipos de força militar não podem agir contra esses alvos diretamente e limitam-se a operações contra forças em campo.14 É claro que o poder aéreo também pode atacar essas forças e pode fazê-lo com muita eficácia. As razões para que nos voltássemos para o poder aéreo na era que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, quando se previa uma guerra contra um opositor industrializado, incluíam o desejo de se evitar uma carnificina, a interdependência das economias modernas, a aparente vulnerabilidade dos CG estratégicos e a capacidade do poder aéreo de afetá-los com um risco relativamente baixo. É importante observar que o número dessas razões tendeu a crescer ao longo das décadas. É verdade que os aspectos intangíveis de um país — sua cultura, religião e tradição — serão difíceis de influenciar, mas isto acontece com o uso de todas as forças militares, não apenas do poder aéreo.

Determinar o alvo ou grupo de alvos fundamentais em um país exige medida cuidadosa e exata dos efeitos dos ataques aéreos estratégicos. Essa análise é essencial para garantir que os resultados serão os esperados, de modo que se possam fazer ajustes em operações futuras. Isto não é uma consideração secundária. As informações aéreas são um fenômeno relativamente novo. Embora as agências que recolhem informações tenham existido durante séculos, os tipos de informações que buscavam pertenciam a dois extremos. De um lado, procuravam o descortino diplomático que determinasse o potencial da política exterior do adversário, a força do governo, o compromisso das alianças ou a firmeza da economia. De outro lado, também desejavam certificar-se de informações militares, como o tamanho do exército e da marinha inimigos, o itinerário de marcha, a adequação de suprimentos e o regime de tiro da artilharia. Embora a informação tática também seja necessária para a batalha aérea — força, disposição e capacidade da força aérea inimiga e da rede de defesa antiaérea — a guerra aérea estratégica exige um tipo de informações totalmente novo. As informações industriais e econômicas minuciosas também são exigidas agora. Precisa-se saber a localização exata e a função de alvos como os centros governamentais, econômicos e militares bem no interior do território inimigo, porque as aeronaves podem atacá-los. A guerra aérea exige uma compreensão minuciosa de rede elétrica, circuitos rodoviário e ferroviário, indústria de ferro e aço, rede de comunicações e um grande número de outros elementos desse tipo. Essa forma de informações militares difere fundamentalmente da que se usava nas épocas anteriores. Como resultado, novas burocracias surgiram durante a Segunda Guerra Mundial, compostas de economistas, especialistas em indústrias e engenheiros cuja função principal era estudar a conformação e as vulnerabilidades de um país inimigo.15 Hoje em dia, essas agências de informação constituem uma porção importante das forças armadas e seus produtos são vitais para uma formulação de um plano viável de campanha aérea.

Ao mesmo tempo, os chefes aeronáuticos rapidamente perceberam, na Segunda Guerra Mundial, que era tão importante compreender como o sistema industrial pára de funcionar quanto era importante compreender como funcionava. Precisavam de um modo de medir os efeitos de um ataque aéreo em um sistema complexo, interconexo e de diversos níveis — uma tarefa extremamente difícil porque exigia análise de circuitos complicados. Por exemplo, é relativamente fácil determinar a quantidade de dano físico que um ataque aéreo causa a um pátio de manobras ferroviárias — número de edifícios ou vagões destruídos, trilhos rompidos e assim por diante. É mais difícil medir o efeito que esse dano terá em toda a rede, considerada a redundância desses sistemas, a disponibilidade de equipes de reparos e a capacidade de dirigir o tráfego para outras estações. É ainda mais difícil julgar que efeito a falta de materiais que não foram transportados pelos trens destruídos terá na economia como um todo. Um exemplo desse problema encontra-se na complexidade do trabalho de um historiador que examinou os registros do escritório ferroviário alemão na Segunda Guerra Mundial. Sua análise revelou que a destruição e os estragos no tráfego ferroviário alemão restringiram drasticamente o transporte do carvão, combustível primordial da maior parte da produção industrial e da geração de energia elétrica no Reich. Portanto, a falta de carvão produzida pelos estragos no sistema ferroviário tiveram um efeito importante sobre a produção do aço, resultando no decréscimo na produção de carros de combate, navios e artilharia pesada.16 Desse modo, ataques aéreos contra alvos aparentemente sem relação com a capacidade militar bem no interior da Alemanha reduziram genericamente essa capacidade das forças armadas alemãs. Claro que uma análise assim exige familiaridade íntima com a economia do inimigo, bem como competência analítica. Esses não são os únicos problemas.

Se estiver correta a afirmativa de John Keegan de que os fatores sociais e culturais desempenham um papel maior na guerra do que reconhecemos até aqui, então torna-se ainda maior o problema da análise. Essa dificuldade se complexifica ao considerarmos que um país pode atacar um alvo especial não por causa dos efeitos que ele espera produzir no inimigo, mas pelo efeito que produz em sua própria população. O ataque do General Jimmy Doolittle, que enviou 16 bombardeiros contra alvos em Tóquio, em abril de 1942, não influenciou apenas os líderes e a economia japoneses, mas, também, favoreceram o moral americano após uma série de derrotas. De maneira semelhante, podem-se realizar ataques para influenciar terceiros. Algumas pessoas argumentariam, por exemplo, que lançamos as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasáqui não para compelir os japoneses a renderem-se, mas para enviar uma mensagem política à União Soviética, como um ato de dissuasão para o futuro.17 De maneira semelhante, será que o ataque aéreo à Líbia, em 1986, em reação ao bombardeio terrorista de Berlim, teve um efeito dissuasor semelhante em relação à Síria? Em poucas palavras, precisamos lembrar-nos de que a guerra consiste em organismos vivos combatendo outros organismos vivos, enquanto há, ainda, organismos vivos que observam e são afetados. Portanto, as ações na guerra têm efeitos em ambos os participantes e em não-participantes e esses efeitos podem ser ou não intencionais. Se os motivos em jogo são tão complexos e distribuem-se em tantos níveis, os problemas de análise são gigantescos. Torna-se, desse modo, necessário, para as organizações de informações, concentrarem-se em dar um segundo salto — da compreensão dos processos econômicos industriais para a dos processos psicológicos e culturais. Isto não será fácil.

Até que se torne possível medir e quantificar, de maneira previsível e com exatidão, esses efeitos em nível macro, os aviadores estarão sempre em desvantagem em relação a seus correspondentes na superfície. Durante séculos mediram-se, tradicionalmente, a vitória e a derrota em terra em termos de exércitos destruídos, soldados mortos e território capturado. Esses padrões são quantificáveis e amplamente reconhecidos. É preciso lembrar, contudo, que do mesmo modo que a ausência de dados estatísticos abundantes não significa necessariamente que uma teoria esteja errada, também sua existência não confirma necessariamente a correção de uma política ou de uma teoria. Os americanos parecem ter um pendor cultural para medir coisas, especialmente na guerra — tonelagem das bombas, taxa de surtidas, contagem de corpos, destruição de carros de combate — e isso pode levar equivocadamente a pensar que a simples presença dos números implica ou exatidão ou êxito. Se estivermos medindo as coisas erradas, contudo, as estatísticas são menos que sem significado.

Em suma, durante as últimas seis décadas viu-se que o poder aéreo está desempenhando um papel crescentemente importante na guerra. Os comandantes de forças de superfície percebem que suas operações ficam extremamente difíceis, se não impossíveis, sem um emprego extenso do poder aéreo. Sem dúvida, nossa Marinha construiu a maior parte de sua estrutura de força (os grupos de batalha de navios aeródromos) em torno do poder aéreo; o Corpo de Fuzileiros organizou suas forças-tarefas ar-terra em torno do poder aéreo; e os 5 mil helicópteros do Exército constituem a maior arma aérea do mundo. Poucas pessoas questionam a capacidade do poder aéreo de ser decisivo nos níveis tático e operacional da guerra. A questão de sua eficácia no nível estratégico da guerra, contudo, é um assunto diferente. Desde a primeira década de existência dos vôos, os aviadores têm proclamado que a guerra foi mudada para sempre por causa da nova arma. Sem impedir o domínio do poder aéreo no campo de batalha, eles argumentam a favor de sua preeminência também no nível estratégico. Seus argumentos em favor disso se têm apoiado em suas diversas filosofias de seleção de alvos. A questão de que alvos estratégicos devem ter prioridade nas campanhas aéreas é surpreendentemente complexa, e a resposta não é de maneira nenhuma evidente. Em resultado, brotou toda uma variedade de teorias aéreas, com sua própria lógica e seus próprios indícios favoráveis.

A afirmativa “a flexibilidade é o elemento fundamental do poder aéreo” tornou-se um aforismo. Isto é tão verdade no sentido teórico quanto no operacional. Agora precisamos de aviadores que conheçam todos os aspectos da guerra, inclusive os teóricos, e tenham, neles, uma boa base. Só assim eles serão capazes de escolher a idéia de emprego mais adequada à situação em tela. A flexibilidade é também fundamental para a estratégia aeronáutica. Em última análise, a estratégia de seleção dos alvos aéreos é uma arte, não uma ciência. Infelizmente é uma arte incrivelmente complexa. Este artigo procurou armar melhor os estrategistas aéreos com uma série adequada de perguntas de maneira que eles possam tomar decisões melhores na paz e na guerra.

Notes

1. Daí a afirmativa de Clausewitz de que “a destruição das forças inimigas é o princípio diretor da guerra e, no que diz respeito ao objeto positivo, o modo principal de alcançar nosso objetivo”. Carl von Clausewitz, On War, org. e trad.. Michael Howard and Peter Paret (Princeton: Princeton University Press, 1976), 258.

2. A Alemanha nazista foi uma exceção. Só depois que a força aérea, o exército e a marinha alemães estavam amplamente destruídos, a economia em pedaços e as tropas soviéticas tinham realmente entrado em Berlin é que o sucessor de Hitler pediu a paz. Considerando-se o estado do Reich naquele ponto, sua rendição oficial foi quase irrelevante.

3. A principal obra de Douhet, publicada em 1921 com uma edição revista em 1927, chamou-se “Command of the Air”. Em 1942 esse ensaio foi combinado com três outras de suas obras importantes, traduzidas por Dino Ferrari e publicadas como Command of the Air (New York: Coward-McCann). Em 1983 o Air Force History Office reimprimiu essa tradução com nova introdução. Para a análise das teorias de Douhet, veja-se Bernard Brodie, Strategy in the Missile Age (Princeton: Princeton University Press, 1959) e Col Phillip S. Meilinger, “Giulio Douhet and the Origins of Airpower Theory,” in School of Advanced Airpower Studies (SAAS), The Paths of Heaven: The Evolution of Airpower Theory (Maxwell AFB, Ala.: Air University Press, 1997), 1–40.

4. Veja-se Lt Col Peter R. Faber, “Interwar US Army Aviation and the Air Corps Tactical School: Incubators of American Airpower,” in SAAS, Paths of Heaven, 183–238.

5. As origens da teoria da rede industrial podem ser encontradas desde o começo dos anos 20. O Maj William C. Sherman, instrutor da Air Corps Tactical School escreveu: “na maior parte das indústrias, basta destruir certos elementos para incapacitar o todo. Esses elementos podem ser chamados fábricas fundamentais.” Air Warfare (New York: Ronald Press Co., 1926), 218. Para o desenvolvimento dessas idéias nos anos 30, veja-se a narrativa de um dos participantes, Maj Gen Don Wilson, “Origins of a Theory of Air Strategy,” Aerospace Historian 18 (Spring 1971): 19–25.

6. Para análise das teorias de Trenchard, veja-se Col Phillip S. Meilinger, “Trenchard, Slessor, and Royal Air Force Doctrine before World War II,” in SAAS, Paths of Heaven, 41–78.

7. As idéias de Slessor ainda não foram adequadamente exploradas. Vejam-se suas excelentes memórias em The Central Blue: Recollections and Reflections (London: Cassell, 1956). Seu trabalho teórico mais impressionante é Air Power and Armies (London: Oxford University Press, 1936).

8. John Boyd não publicou suas teorias, mas a melhor descrição e avaliação delas foi feita pelo Lt Col David S. Fadok, “John Boyd and John Warden: Airpower’s Quest for Strategic Paralysis,” in SAAS, Paths of Heaven, 357–98.

9. Col John A. Warden III’s The Air Campaign: Planning for Combat (Washington: Pergamon-Brassey’s, 1989) teve um impacto importante no pensamento da Força Aérea, embora seus apelos ao poder aéreo estratégico sejam relativamente modestos. Sem dúvida, é esclarecedor que o livro de Warden provoca pouca controvérsia hoje em dia. As idéias que ele apresentou tornaram-se conhecimento estabelecido. As idéias de Warden ganharam um impulso significativo com a experiência da Guerra do Golfo.

10. Para uma narrativa esclarecedora e de fácil leitura do planejamento da campanha aérea na Tempestade no Deserto, veja-se Col Richard T. Reynolds, Heart of the Storm: The Genesis of the Air Campaign against Iraq (Maxwell AFB, Ala.: Air University Press, 1995).

11. Veja-se John Keegan, A History of Warfare (New York: Knopf, 1993). Para uma excelente análise de como fatores culturais aplicam-se à guerra aérea, veja-se Lt Col Pat Pentland, “Center of Gravity Analysis and Chaos Theory: Or How Societies Form, Function and Fail” (Maxwell AFB, Ala.: Air War College, 1993); e Paul M. Belbutowski, “Strategic Implications of Cultures in Conflict,” Parameters 26 (Spring 1996): 32–42.

12. Para uma discussão interessante, veja-se Robert A. Pape, Bombing to Win: Air Power and Coercion in War (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1996); e Michael Clarke, “Air Power, Force and Coercion,” in Andrew Lambert e Arthur C. Williamson, eds., The Dynamics of Air Power (Bracknell: Royal Air Force Staff College, 1996).

13. Para excelentes discussões desse processo, veja-se Lt Col Maris McCrabb, “Air Campaign Planning,” Airpower Journal 7, no. 2 (Summer 1993): 11–22 e David E. Thaler and David A. Shlapak, Perspectives on Theater Air Campaign Planning (Santa Monica, Calif.: RAND, 1995).

14. Na verdade, os aviadores defendem o caráter decisivo da batalha da superioridade aérea. Sem a superioridade aérea — obtida por destruir ou neutralizar a força aérea e as defesas antiaéreas de superfície do inimigo — todas as outras operações militares em terra, no mar e no ar ficam extremamente difíceis.

15. Ainda não se escreveu um estudo desses guerreiros econômicos, mas as visões de dois participantes encontram-se em W. W. Rostow, Pre-Invasion Bombing Strategy: General Eisenhower’s Decision of March 25, 1944 (Austin: University of Texas Press, 1981), pelos americanos, e Baron Solly Zuckerman, From Apes to Warlords: The Autobiography (1904–1946) of Solly Zuckerman (London: Hamilton, 1978), pelos britânicos.

16. Veja-se Alfred C. Mierzejewski, The Collapse of the German War Economy, 1944–1945: Allied Air Power and the German National Railway (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1988).

17. Para uma excelente discussão dessas idéias, veja-se Maj Thomas P. Ehrhard, “Expanding the SAAS Airpower Analysis Framework” (tese de mestrado, School of Advanced Airpower Studies, Maxwell AFB, Alabama, 1995).


Colaborador

O Coronel Phillip S. Meilinger (Academia da Força Aérea dos EUA. Mestrado, University of Colorado; Doutorado, University of Michigan) é professor de estratégia no US Naval War College, em Newport, Rhode Island. Exerceu, de 1991 a 1995, a função de Diretor da Escola de Altos Estudos do Poder Aéreo, Base Aérea Maxwell, Alabama. Possuindo mais de 2.500 horas de vôo, foi piloto de C-130 e HC-130 na Europa e no Pacífico e serviu no Estado-Maior da USAF, no Pentágono, de 1989 a 1991. É o autor de Hoyt S. Vandenberg: The Life of a General (Indiana University Press, 1989) e 10 Propositions Regarding Airpower (Air Force History and Museums Program, 1995), constando ambos da lista de leitura profissional do Chefe do Estado-Maior da USAF. É, também, o organizador e co-autor de The Paths of Heaven: The Evolution of Airpower Theory (Air University Press, 1997) e já redigiu um grande número de artigos e resenhas críticas referentes à teoria, história e emprego do poder aéreo. Cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, a Escola de Comando e Estado-Maior, ambas da USAF, e a Universidade de Defesa Nacional dos EUA.

As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as do Departamento de Defesa, da Força Aérea, da Universidade do Ar ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo norte-americano.


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